domingo, 14 de janeiro de 2007

Contos de Outrora Medo do dedo

Medo do dedo
NiceiaK
Na chácara onde morava, quando criança, não tinha água encanada. Todas as casas tinham poços perfurados.Meu pai tinha o maior orgulho de nosso poço d'água. Este poço, dizia ele, foi perfurado muito profundamente, para fornecer água mineral.
Não sei se tinha alguma propriedade "mineral"especial ou não, só sei que a água saía do poço clarinha, fresquinha, uma delícia.Eu esperava o meio-dia para ver o fundo do poço, no seu ponto mais distante onde a água brotava. E também tinha o hábito de beber água num copo de alumínio, no sol para ver a água virar prata.
Tínhamos que puxar a água, num balde, que por sua vez era amarrado numa corda, enrolada num sarilho.
Sarilho, já viram que palavra mais "de gente culta" sarilho era pronunciado com tanta naturalidade, que ninguém prestava atenção em sua casticês.Pois bem, eu adorava puxar água do poço para aguar meu jardim. Todas as tardes, eu puxava dezenas de baldes e sentia um prazer pueril em ver minhas plantinhas, margaridas brancas, na maioria, balançarem as ramas agradecendo a água tão fresquinha.
Não raro, ouvíamos estórias de alguém que deixava, acidentalmente a manivela do sarilho escapar, e a corda com o peso do balde cheio de água, desembestada poço abaixo, batendo no barranco, fazendo barulho assutador e muitas veses acabava em cabeça rachada da manivela desordenada.
Quando isto acontecia, em geral com crianças, a notícia corria e as mães ficavam tempão vigiando os filhos para que não se aproximassem dos poços.
Dalí alguns dias, todo mundo se esquecia da tragédia e iam as crianças a tirar água dos poços.
Eu era uma criança esquisita, de dia tinha coragem pra brigar, fazer mal criação com as pessoas, subir em a'rvores, contar e ouvir estórias de cemitério, tirar água de poço, fazia mil diabices. Não temia castigo. Mas de noite..., eu virava uma criança medrosa, tinha medo do escuro , não ia sozinha a parte alguma. Era chata e dependia dos meus irmãos que se aproveitavam desta situaçao pra se vingar e meter mais medo em mim.
Um dia, um adulto, a noite, puxando água do poço, perdeu o controle da manivela do sarilho e na tentativa de segurar a corda, cortou um dedo, isto é perdeu mesmo o dedo.
Pra quê!, meus irmão me atormentaram e dizendo que a noite o dedo ia me pegar.
Entrei em pânico, que pavor, suava frio em baixo das cobertas, naquele calor de trinta graus. Por vários dias, me comportei, rezei. Virei santa.
Cheguei a cantar pro meu anjo da guarda:Santo Anjo do Senhor,meu zeloso guardador,já que a ti me confiou a piedade Divina,sempre me rege,me guarda,me governa e ilumina.Amén.
Por vários dias dei sossêgo a meus irmãos e a meus pais e por muitos anos escutei a estória do dedo

2 comentários:

delfina disse...

Imaginei outra história do dedo.Dedo no trem...Vc sabe. beijos

Anônimo disse...

Nicéia,

Este conto foi um verdadeiro memorex (remédio para memória).
Me lembrei da oração que fazíamos em sala de aula no primário- a mesma do anjo da guarda.Me lembrei também que morria de medo de uma piada onde o morto voltava para atormentar o Joãozinho.

Com melancólico medo ,

Leila Strasser